quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Criar numa velocidade que respeite a nossa vida real

Esse é o lema de Ju Barbosa, que, aos 23 anos, descobriu no slow content uma nova metodologia para criar o próprio conteúdo na internet

Já parou para pensar na quantidade de conteúdos que você recebe diariamente seja pelo feed do Instagram ou qualquer outra mídia social? E no quanto o ritmo frenético de criação é nocivo para a saúde mental tanto sua como consumidor quanto a de quem produz digitalmente? Afinal, 21% dos criadores de conteúdo do Brasil dizem sofrer de ansiedade ou de algum episódio depressivo, segundo pesquisa do Criadores Id. Julia Garcia Barbosa, mais conhecida como Ju Barbosa na internet, decidiu que produzir numa velocidade que respeite a vida real é a melhor forma para postar e estar offline harmonicamente.

A designer de moda de Londrina, Paraná, começou a criar no Instagram e YouTube em 2018, logo após vencer o Concurso Jovens YouTubers — criado pelo Serviço Social da Indústria (SESI) e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). Ela e o outro colocado foram convidados a fazer a cobertura de um evento em Brasília e premiados com tutoria de criadores de conteúdo e equipamentos tecnológicos para iniciarem no mundo digital.

Com essa oportunidade e câmera em mãos, Ju publicou vídeos próprios de estreia no YouTube, criou um blog, continuou com o Instagram e, no mesmo ano — em meio ao Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação —, participou da Corrida das Blogueiras, criada pelo canal no YouTube Diva Depressão, na qual conquistou mais público para os conteúdos.


Responsabilidade coletiva

Ju Barbosa já falava sobre dicas de moda e estilo desde o início do primeiro blog, o Invente Moda, aos 13 anos, mas na metade de 2019 parou de comprar em lojas fast fashion e decidiu focar em moda sustentável. Foi nesse mesmo ano que ela percebeu o quanto as pessoas têm um padrão de consumo de roupas e conteúdo e se torna cada vez mais necessário todos tirarem um momento para reflexão. “Precisamos saber o que isso impacta na nossa vida, dos outros e no planeta”, declara a designer.

Ela criou também o Desafio Segunda Pele, com o objetivo de alcançar quem queira adquirir conhecimento em sustentabilidade na moda. Assim, dissemina o conteúdo acadêmico de maneira acessível e descomplicada, conscientizando e empoderando o consumidor.

E todo esse pensamento sustentável também atingiu a maneira de produção da jovem. Trabalhando no estúdio de design e branding — gestão das estratégias de uma marca — durante o dia, chegava em casa à noite para criar conteúdo na internet. Apesar de não ter cobrança de horário no trabalho, apenas de entregas, Ju não conseguia dar conta da demanda que os perfis do Instagram insistiam em dizer ser o certo para a criação digital. Não tinha como fazer um post e 15 stories diariamente, além de um IGTV semanal, pelo fato de a criação não ser a única atividade que fazia na vida.

Com ansiedade, ela começou a fazer terapia em 2019 e a entender que existem limites. Considerava a entrega de conteúdos uma bagunça, até que descobriu um vídeo da Nátaly Neri, também criadora de conteúdo, em que ela abordava sobre o slow blogging — tendo o slow content como nova forma de denominação —, uma maneira mais consciente de produzir digitalmente, utilizando a internet na velocidade da vida. Ju achou que tudo fez sentido e começou a produzir de forma desacelerada.

Além de Nátaly como grande inspiração, Matheus Ilt e Sue Coutinho — que estará conversando com a gente em um próximo post aqui no blog — também fazem parte de quem ela admira no slow content. Os três criadores produzem da forma que acham mais sustentável e praticável no momento de vida de cada um.

Mudança no processo

Ju, que conta com mais de 53 mil seguidores somados no Instagram e YouTube — dados da segunda quinzena de novembro de 2020 —, também entendeu que não precisava postar um número exagerado de conteúdos e agora publica com mais constância, pois conseguiu se organizar melhor e entregar na internet o que faz sentido para ela mesma. O slow fashion já abordado por ela começava a se encaixar com o slow content.

No fim de outubro, publicou um vídeo no YouTube em que fala sobre o slow content como maneira de produção digital.


O público dela, que abrange mulheres de 18 a 24 anos na grande maioria, entende essa  decisão e não existe a cobrança que tantos criadores recebem de quem os seguem. “É questão de acostumar a comunidade a entender a importância do conteúdo e a relevância”, afirma a criadora.

Ela continua com boa parte dos seguidores do início da criação e com os que chegam a todo momento, porém entende que o crescimento é distinto por não criar freneticamente. Entretanto afirma que os conteúdos dela continuam atuais, podendo ser revistos e procurados pela comunidade.

De tal maneira que Ju também não quer que a comunidade fique presa somente no conteúdo que ela posta. “Todos precisam consumir de fontes diferentes para não ter a visão de somente uma pessoa, pois assim não existe criatividade”, ela destaca.

O mesmo acontece no relacionamento com as empresas, que já chegam sabendo como Ju Barbosa produz. O fato dos empreendimentos serem pequenos também facilita, porque funcionam em velocidade desacelerada por padrão — as conhecidas “eupresas”, em que somente a dona da marca faz tudo.

Devagar e sempre

Se antes Ju Barbosa criava sofrendo por antecedência, fazendo tudo em cima da hora e no automático, agora ela consegue planejar um mês inteiro e ter uma semana de conteúdos antecipados. Ela garante que a desorganização ficou na época da faculdade, pois agora usa planner, agenda virtual, bloco de notas e o aplicativo de gerenciamento de projeto Trello para deixar tudo ainda mais visível.

E os benefícios do slow content não param por aí. Agora Ju entende essa organização, produz com mais qualidade e sabe com quem quer falar, além de conseguir ter tempo para vida social, descanso, leitura e ócio criativo: A mente consegue digerir o que consumiu a semana inteira e criar coisas novas; há esse tempo de parar para criação”.

Com posts três vezes na semana, ela conclui que posta menos, mas se compromete com constância, estabelecendo o que pode entregar e tendo um momento de pesquisa e feedback ainda maior.

Enquanto finaliza o TCC da especialização em Moda, Produto e Comunicação na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Ju pensa nas metas para 2021. Ela pretende aumentar a frequência de conteúdos, mas isso porque ela conseguirá focar mais nessa parte da vida profissional. Ela quer cuidar mais do lado burocrático da empresa, os bastidores que o público dela não conhece, porém que existe.

Como conselho, Ju Barbosa diz que não se pode deixar o algoritmo influenciar, pois enquanto uns são fáceis de entender, outros são uma incógnita, como o do Instagram. Além disso, ela considera que “é preciso ter responsabilidade e respeito aos outros; crio um conteúdo mais responsável comigo, com o público e com a saúde mental de todo mundo”.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

A vida tem um limite para a aceleração

Como surgiu o slow content, movimento que valoriza o conteúdo de responsabilidade

Continuando a série de posts sobre o slow content, um estilo de vida e uma filosofia de comportamento que atinge a criação de conteúdo digital, é importante refletir sobre o assunto, ainda mais em um mundo tão agitado. Diminuir o ritmo, absorver a vida ao redor e refletir sobre as próprias ações são alguns dos valores do movimento.

Essa forma desacelerada de criar um conteúdo veio do slow blogging, um manifesto criado por Todd Sieling, em 2006. Nessa época em que os blogs estavam em alta e a produção era intensificada, o designer de software do Canadá descreveu seis imperativos para a criação e disseminação de conteúdo online significativo.

Todd estabeleceu uma prática de escrita baseada na internet, que se destina a usar o meio para intervenções sociais, culturais e políticas ponderadas e duradouras. E a velocidade de criação em 2006 era menor do que agora que, com tantas mídias sociais ao mesmo tempo, torna-se mais insustentável querer dar conta de tudo.

“Slow blogging é uma rejeição ao imediatismo. É uma afirmação de que nem tudo que vale a pena ler é escrito rapidamente, e que muitos pensamentos são servidos melhor depois de completamente assados e redigidos em temperatura constante”, Todd Sieling, para o New York Times.

Apesar de não ter mais o próprio blog há alguns anos, Sieling continua sendo referência do slow blogging. Mas essa filosofia de não ser acelerado começou muito antes de 2006. Foi em 1986, na Itália, que o movimento slow food foi criado por Carlo Petrini, após uma manifestação contrária à construção do fast food McDonald’s na Piazza di Spangna, em Roma.

O movimento internacional foi fundado oficialmente em 1989, em Paris. Assinado por 15 países, o Manifesto Slow Food surgia e agora já está presente em 150 nações do mundo. Do movimento surgiram outras formas desaceleradas de viver certas ações da vida, como sempre foi e não como quiseram que fosse, principalmente após a Revolução Industrial.

Foi o que aconteceu com o slow living, que teve início junto com o slow food, em 1986. Com o objetivo de sair do piloto automático, sempre com a preocupação do tempo, nasceu esse estilo de vida que leva a um viver mais consciente, tendo como resultado leveza e equilíbrio.

Carl Honoré, jornalista e líder do movimento slow no mundo, percebeu que havia algo errado ao se sentir impaciente por ler histórias para seu filho pequeno. Ex-viciado em velocidade e rapidez, Carl adotou o estilo de vida e quis quebrar o tabu que (ainda) existe da lentidão como algo ruim. Ele é autor do livro best seller “Devagar: como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade”, de 2004. Em uma palestra que deu em um TED Talks, em 2005, Honoré mostra que desacelerar não é perda de tempo e que a vida é o agora.

O vídeo está em inglês, mas há tradução para o português nas legendas geradas automaticamente. Assista a seguir:

Além dos movimentos slow food, slow living e slow blogging/content, o slow fashion foi cunhado por volta do ano de 2004, em Londres, por Angela Murrills. Ele abrange um modelo de produção que valoriza um trabalho ético, contra um consumo impulsivo e de produção em massa.

Houve também o manifesto do slow media, criado por Benedikt Köhler, Sabria David e Jörg Blumtrittem, em 2010, na Alemanha. Possui relação com o jornalismo lento, estudado por Michelle Prazeres, jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), doutora em Educação (FE- USP) e professora e coordenadora do Centro Interdisciplinar de Pesquisa (CIP) da Faculdade Cásper Líbero (SP). Ela idealizou o Desacelera SP e o Dia Sem Pressa — primeiro festival da cultura slow do Brasil. E está desenvolvendo em pesquisa de pós-doutorado no programa de Comunicação e Semiótica da PUC-SP estudo sobre as relações entre comunicação e a cultura slow, segundo informações do site de Michelle.

A jornalista é criadora do primeiro podcast totalmente dedicado ao slow living, que você pode conferir aqui — com calma, sossego da sua casa e muita reflexão:

Esse estilo de vida que abrange todas as formas desaceleradas é um incentivo a estar presente, viver o off e ter uma intenção com tudo ao redor.

Com tantas mídias sociais diferentes na palma da mão de cada pessoa, o slow content é a nova forma de denominar o slow blogging, pois houve uma migração dos antigos blogs para essas plataformas. Na teoria e na prática, as definições de slow blogging se encaixam no slow content.

Para conhecer melhor

O termo slow content é pesquisado no Google desde janeiro de 2004, havendo uma oscilação, mas sempre permanecendo nas buscas. Além disso, se comparado pelo Google Trends com o termo slow blogging, este é na maioria das vezes mais pesquisado pelo Brasil, com 23% de interesse contra 77% para o slow content.

Para aprimorar essa conversa, existem filmes, documentários e livros que apresentam os cuidados que se deve ter nas mídias, principalmente na hora de produzir.

Um deles é “O Dilema das Redes”, lançado em setembro de 2020 na plataforma de streaming Netflix. O documentário analisa o papel das mídias sociais e os danos causados por elas na sociedade, detalhados por especialistas em tecnologias e profissionais da área que já trabalharam em grandes empresas do Vale do Silício. Há também a comprovação de que os próprios usuários das mídias são o produto por meio de algoritmo para mantê-los cada vez mais tempo nas plataformas.

Também um outro exemplo é o livro de Jason Lanier, um dos precursores da realidade virtual, “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais”, em que o título é autoexplicativo.

Com mais tempo para criar e menos preocupação com a quantidade de posts, mas ainda assim mantendo a frequência, o que resta de mais importante é criar conteúdos de valor. O objetivo é ter mais qualidade em menos quantidade e saber o que funciona para você.

No podcast Já Pensasse?, do jornalista e criador de conteúdo pernambucano Caio Braz, ele conversa em um episódio com a criadora de conteúdo Alexandra Gurgel, do Alexandrismos, e com a diretora da Obvious Agency Marcela Ceribelli para discutir sobre a possibilidade de embarcar na tendência de slow content.

A adesão ao slow content e qualquer outra forma de viver desacelerada é individual, mas é uma necessidade coletiva, como vocês poderão conferir nas próximas postagens por aqui.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Slow content

O movimento que rejeita o imediatismo e prioriza conteúdos desacelerados e conscientes

Mal acorda e já pega o celular para conferir as novidades na internet. Post novo no Instagram, notificação de vídeo no YouTube, mais notícias a cada segundo no site jornalístico, “mas esta foto eu não curti, como assim não apareceu pra mim?”, assunto do momento no Twitter, mensagens dos amigos no WhatsApp, episódio inédito do podcast.

É o que acontece com a jornalista e criadora de conteúdo Ana Luiza Fernandes, de 23 anos, que se sente muito "sugada" e se vê deslizando o feed do Instagram sem parar, muitas vezes não absorvendo nenhum conteúdo. “São poucos os que eu paro, leio e assisto de fato”, declara Ana Lu.

Todo esse ritmo acelerado e essa hiperconectividade são cansativos em algum momento da vida para qualquer pessoa. De acordo com dados da Hootsuite — empresa líder mundial em gerenciamento de mídias sociais —, o Brasil é o segundo país que mais passa tempo conectado à internet. Ainda segundo a pesquisa, o brasileiro fica em média mais de nove horas na internet todos os dias, atrás apenas das Filipinas. Quando menos espera, você está acelerando vídeos no YouTube para dar conta de tantos outros e fica sem paciência para conversas reais.

Se você já ficou exausto com a quantidade de conteúdos e informações principalmente nas mídias sociais, imagine como é para um criador de conteúdo que produz de forma online e também passa o tempo livre acessando a internet. A youtuber Ellora Haonne é um exemplo disso e do quanto essa conectividade pode afetar a saúde mental, conforme apresentado no vídeo abaixo:

Nos últimos meses, em especial no início da pandemia, muito se viu no Instagram os posts com o “tem que”. A expressão “obriga", no mínimo, a criar um post no feed e 15 stories diariamente e a postar toda semana um reels e um IGTV.

Mesmo com todas essas regras, está crescendo o debate por uma vida mais desacelerada e uma produção de conteúdo que seja sustentável tanto para quem produz quanto para quem consome. Muito comentado em 2020, como em eventos online como o YOUPIX Summit e Festival SGB, do Social Good Brasil, o slow content está cada vez mais presente no momento de avaliar e refletir sobre a criação de conteúdo digital.

Sociedade do cansaço

Levando em consideração que o Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é o país com o maior número de pessoas que sofrem de ansiedade, esse assunto precisa ser cada vez mais debatido. E não é de agora: Byung-Chul Hans, em 2010, lançou o livro “Sociedade do Cansaço”, em que mostra que a descrição por Michel Foucault de uma sociedade disciplinar e repressora do século XX perde espaço para uma nova organização coercitiva: a violência neuronal, como é apresentado na sinopse da obra.

Nessa sociedade do cansaço, a cobrança exagerada para apresentar resultados é feita pelas própria pessoas, em que elas mesmas se tornam vigilantes das ações. De tal forma que há a existência de mais trabalho para receber menos, que com a ideologia da positividade excessiva tem gerado um aumento significativo de doenças como depressão, transtornos de personalidade e síndromes como hiperatividade e burnout, de acordo com Hans, ainda na sinopse do livro.

Mas se 70% da população brasileira tem acesso à internet, de acordo com o IBGE, como fazer uma criação de conteúdo desacelerado? E será que essa produção diferente do que se vê frequentemente nas mídias sociais oferece resultados?

Nos próximos cinco posts por aqui, vocês irão conferir uma série de reportagens sobre o slow content, que nada mais é que um estilo de vida e uma filosofia de comportamento. Serão matérias com criadoras de conteúdo que produzem de maneira desacelerada, especialistas no assunto, psicóloga e consumidores do slow content.