terça-feira, 24 de novembro de 2020

Slow content

O movimento que rejeita o imediatismo e prioriza conteúdos desacelerados e conscientes

Mal acorda e já pega o celular para conferir as novidades na internet. Post novo no Instagram, notificação de vídeo no YouTube, mais notícias a cada segundo no site jornalístico, “mas esta foto eu não curti, como assim não apareceu pra mim?”, assunto do momento no Twitter, mensagens dos amigos no WhatsApp, episódio inédito do podcast.

É o que acontece com a jornalista e criadora de conteúdo Ana Luiza Fernandes, de 23 anos, que se sente muito "sugada" e se vê deslizando o feed do Instagram sem parar, muitas vezes não absorvendo nenhum conteúdo. “São poucos os que eu paro, leio e assisto de fato”, declara Ana Lu.

Todo esse ritmo acelerado e essa hiperconectividade são cansativos em algum momento da vida para qualquer pessoa. De acordo com dados da Hootsuite — empresa líder mundial em gerenciamento de mídias sociais —, o Brasil é o segundo país que mais passa tempo conectado à internet. Ainda segundo a pesquisa, o brasileiro fica em média mais de nove horas na internet todos os dias, atrás apenas das Filipinas. Quando menos espera, você está acelerando vídeos no YouTube para dar conta de tantos outros e fica sem paciência para conversas reais.

Se você já ficou exausto com a quantidade de conteúdos e informações principalmente nas mídias sociais, imagine como é para um criador de conteúdo que produz de forma online e também passa o tempo livre acessando a internet. A youtuber Ellora Haonne é um exemplo disso e do quanto essa conectividade pode afetar a saúde mental, conforme apresentado no vídeo abaixo:

Nos últimos meses, em especial no início da pandemia, muito se viu no Instagram os posts com o “tem que”. A expressão “obriga", no mínimo, a criar um post no feed e 15 stories diariamente e a postar toda semana um reels e um IGTV.

Mesmo com todas essas regras, está crescendo o debate por uma vida mais desacelerada e uma produção de conteúdo que seja sustentável tanto para quem produz quanto para quem consome. Muito comentado em 2020, como em eventos online como o YOUPIX Summit e Festival SGB, do Social Good Brasil, o slow content está cada vez mais presente no momento de avaliar e refletir sobre a criação de conteúdo digital.

Sociedade do cansaço

Levando em consideração que o Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é o país com o maior número de pessoas que sofrem de ansiedade, esse assunto precisa ser cada vez mais debatido. E não é de agora: Byung-Chul Hans, em 2010, lançou o livro “Sociedade do Cansaço”, em que mostra que a descrição por Michel Foucault de uma sociedade disciplinar e repressora do século XX perde espaço para uma nova organização coercitiva: a violência neuronal, como é apresentado na sinopse da obra.

Nessa sociedade do cansaço, a cobrança exagerada para apresentar resultados é feita pelas própria pessoas, em que elas mesmas se tornam vigilantes das ações. De tal forma que há a existência de mais trabalho para receber menos, que com a ideologia da positividade excessiva tem gerado um aumento significativo de doenças como depressão, transtornos de personalidade e síndromes como hiperatividade e burnout, de acordo com Hans, ainda na sinopse do livro.

Mas se 70% da população brasileira tem acesso à internet, de acordo com o IBGE, como fazer uma criação de conteúdo desacelerado? E será que essa produção diferente do que se vê frequentemente nas mídias sociais oferece resultados?

Nos próximos cinco posts por aqui, vocês irão conferir uma série de reportagens sobre o slow content, que nada mais é que um estilo de vida e uma filosofia de comportamento. Serão matérias com criadoras de conteúdo que produzem de maneira desacelerada, especialistas no assunto, psicóloga e usuários das mídias sociais.

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