22/11/2016

Ainda existe uma criança


Abri a janela ao acordar e vi três crianças brincando na quadra de esportes do prédio da frente. Achei um ótimo jeito de se comemorar o dia das crianças, logo no meio da semana. Escutei as risadas delas como se fossem música para meus ouvidos.

Decidi abrir o Facebook para encontrar postagens legais para compartilhar e vi diversos rostos de crianças nos perfis de meus amigos. Uns ainda bebês, outros com dentes de leite quase caindo. Vi fotos coloridas e fiquei com um sorriso no rosto quando encontrei também fotos em preto e branco nos perfis de amigos mais velhos. Todo mundo tinha entrado na brincadeira e, de algum modo, demonstravam que ainda tinham uma criança morando no coração deles.

Porque não importa a idade, existem muitas pessoas que têm a inocência, o coração puro e a risada contagiante de uma criança. É por isso que várias delas continuam comemorando o dia das crianças e dando e recebendo presentes na data. A gente acaba virando adulto, adquire vários deveres a cumprir todos os dias, tem diversas contas para pagar, se estressa com o cotidiano e frequentemente sente saudade da infância. 

Já parou pra pensar por que sentimos tanta falta dessa época de nossa vida?

A nossa maior preocupação era qual desenho animado escolher para assistir na televisão assim que acordávamos. A variedade era grande e todos pareciam ser maravilhosos aos nossos olhos e ouvidos. Grudávamos o olhar na tela da televisão e quase nem respirávamos de tanta felicidade que sentíamos naquele momento. Era prazeroso acordar cedo porque assim assistíamos a um número maior de desenhos. E se, hoje, mudando de canal a cada segundo nos deparamos com um desenho do qual gostávamos quando éramos pequenos, ficamos felizes e nostálgicos ao saber a música de abertura, as dancinhas dos personagens e até algumas falas deles. 

O mesmo podemos perceber nos doces e salgados que nos remetem à infância. Quando encontramos chicletes, balas, pirulitos, salgadinhos, refrigerantes, sucos e tantos outros alimentos que amávamos na primeira parte da nossa vida, somos transportados mentalmente a momentos em que comíamos cada uma daquelas comidas, fossem eles vivenciados com os amigos inseparáveis, com a família em um almoço de domingo, em um aniversário de um parente, na escola com os colegas de sala. E nem preciso dizer que o gosto e o cheiro nos fazem sentir uma cócega momentânea no céu da boca e a vontade incessante de continuar tendo aquelas memórias incríveis. 

E também, claro, não posso deixar de fora dessas lembranças os lugares que são definidos como "da infância". O parquinho do bairro, a casa da vovó, a rua em que passeamos de bicicleta com amigos, o colégio em que estudamos quando éramos crianças, a praia a qual íamos com toda a família. Podemos até frequentar os mesmos lugares na fase adulta, porém é quase uma obviedade de que sempre nos lembraremos deles como espaços físicos especiais e inesquecíveis para nossa infância. Cada parte desses lugares têm, até hoje, um flash que percorre nossa mente no exato momento em que os visitamos. É por isso que nesses lugares sentimos um aconchego no coração.

A infância carrega consigo momentos inesquecíveis, pessoas especiais, cheiros memoráveis, gostos cognoscíveis e uma nostalgia presente pra sempre na nossa vida. E, enquanto vejo as três crianças brincando na quadra de esportes do prédio da frente, me lembro de todas as brincadeiras que fazia com meus amigos. Algumas só existiram lá atrás e outras são mantidas até hoje nos momentos de diversão das crianças. Só que nós crescemos, viramos adultos e agora as brincadeiras não são tão essenciais em nossa vida. Porém, enquanto curtia as fotos de criança dos meus amigos, me envolvi na brincadeira e postei uma foto também. Foi então que percebi que nós podemos ter amadurecido, tido outras responsabilidades, deixado algumas prioridades do passado de lado, mas continuamos, até hoje e independente das circunstâncias, brincando do nosso jeito. 

Podemos duvidar, entretanto ainda existe uma criança no nosso coração. A nossa risada pode continuar sincera apesar de todos os obstáculos que precisamos ultrapassar. O nosso abraço ainda pode ser de urso apesar das fraquezas que às vezes temos. As nossas brincadeiras, apesar da seriedade a qual precisamos estampar no rosto de vez em quando, podem ser tão incríveis quanto antes. Nós só precisamos querer. Não lembra? Na nossa infância querer era, sim, poder. Nossos sonhos não eram impossíveis e voar estava nos nossos planos. Afinal, o céu não era o limite para nossas risadas.

Vanessa Esteves

[Escrito às 14:53 do dia 17 de outubro de 2016.]

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