23/05/2017

Desapego e demonstração


Acho que, enfim, voltei a escrever. Ou é só um daqueles textos em forma de desabafo que guardarei no bloco de notas do celular para ler em um futuro próximo.

Estes dias, nas lembranças do Facebook, li um texto meu de um ano atrás e senti falta daquela sensação boa de colocar tudo que eu estava sentindo para fora. E então me lembrei de como eu demonstrava os meus sentimentos quando era pré-adolescente e de como isso diminuiu com o passar dos anos. Depois de uma boa reflexão, percebi que a maior parte das pessoas a minha volta fizeram o mesmo. Mas por quê? O que aconteceu conosco para termos esse receio tão grande de dar um passo adiante?

Eu me lembro de uma vez em que comprei dez pacotes de figurinhas para completar um álbum e os dei para o garoto de quem eu gostava na época. Ele ignorou os pacotes e acabou que os amigos dele pegaram e foram colar tudo nos álbuns deles. Porém minhas demonstrações não pararam por aí. Continuei escrevendo cartinhas e escrevendo histórias de amor na internet (época de orkut fake, sabem?) como forma de colocar para fora tudo o que sentia por determinado garoto. A cada ano que passava eu achava as pessoas do sexo masculino ainda mais babacas. Poxa, seria tão difícil assim encontrar um só no meio da multidão que se importasse com o sentimento que eu queria oferecer?

Aconteceu que apareceu um, mas, infelizmente, ele não soube organizar seus próprios sentimentos e me descartou como se eu fosse aquele cartão de dia dos namorados que eu havia dado para ele. Escondida dos meus pais, fui com uma amiga na banca de revistas e comprei um cartão grande com recados apaixonados. Saí de lá com o cartão escondido embaixo da blusa (alguém pode me dizer como eles não perceberam?), fui à festa da igreja com os meus pais e minha amiga e escrevi lá mesmo, longe do olhar de quem me conhecia, um recado para o garoto da época. Assim que o encontrei entreguei o cartão a ele e continuei na festa sorrindo como uma garota apaixonada. Acredito que tenha sido naquela época que eu descobri o que era amar alguém. Entretanto, alguns anos antes dele, eu era apaixonada por um garoto no começo do ensino fundamental e aquele sentimento era recíproco. Foi uma das únicas vezes em que alguém sentiu o mesmo por mim. E foi também a minha primeira demonstração de afeto aceita na hora. Trocávamos recadinhos, cartas de amor e até fotos 3x4 nossas, uma prova incrível de como a gente não sentia vergonha naquela época. Aconteceu que a gente cresceu, viu o mundo de outra forma e o destino decidiu nos separar, não deixando que a gente pudesse ter tido uma decepção um com o outro.

A pré-adolescência foi embora, a adolescência passou cheia de decepções e arrependimentos e a fase adulta chegou com algo faltando. Qual era o problema em demonstrar carinho por alguém no século XXI? O número de livros ensinando a ter um certo desapego pelos outros crescia cada vez mais e quem demonstrasse interesse primeiro era visto como alguém fragilizado e carente. Mas espera aí! Desde quando demonstrar carinho por alguém virou um problema? Já pararam para pensar que talvez boa parte das doenças psicológicas que a população tem hoje em dia se dá pelo fato de que nós seguramos tanto o que sentimos para nós mesmos que chega uma hora que nós adoecemos antes mesmo de explodirmos? Não é nada saudável, mesmo, ficar impedindo sentimentos tão bons de saírem da gente.

Aconteceu que ontem eu mandei uma direta para o famoso crush e fui ignorada. Se eu fiquei chateada? Claro, quem não ficaria? O mínimo que eu esperava era uma risada, poxa. Mas parei para pensar e refleti que, felizmente, eu estou mudando. Estou voltando a ser aquela pré-adolescente que não tinha medo de demonstrar. Que não tinha medo de gostar de alguém e, muito menos, de amar. Ontem, Dia das Mães, falei para a minha mãe que a amava, algo que eu só conseguia fazer através da escrita ou no meio de risadas. Porque a minha trava em dizer as três palavras a alguém não acontecia somente com pessoas do sexo oposto, acontecia com a minha família e amigos também. E, além da minha mãe, consegui ainda mandar um áudio para minha amiga desejando um feliz aniversário e dizendo que eu a amava, que queria que a nossa amizade durasse por muitos anos. U-A-U, que incrível. U-F-A, que alívio! Consegui, finalmente, tirar um peso das minhas costas. Agora mando aquela florzinha da gratidão a todos que já me ajudaram em momentos difíceis e não tenho mais medo de demonstrar quão grata estou.

Ah, e sobre o crush? Li um recadinho que alguém tinha compartilhado logo depois no Facebook sobre demonstração de sentimentos e me senti melhor. A gente acaba ficando com tanto medo de demonstrar o que sente por ter medo de ser ignorada que perde tanta coisa boa, né? Acontece que 2017 está me ensinando a voltar a demonstrar o que sinto e é isso aí. Mágoas vêm e vão, mas a vida é muito curta para não quebrar a cara. E, como o recadinho do Facebook dizia, "não se desculpe por ter sido você mesmo. Não se desculpe por ter exagerado. Não se desculpe por ter demonstrado demais. Não se desculpe por motivos que não há necessidade. Se uma pessoa não te olhou da forma como você merece, coloca nessa sua cabeça de vento que você não errou. Só não era o momento certo. Ou a pessoa certa.", afinal, estamos aqui para viver e aprender, não é mesmo?

Vanessa Esteves

[Escrito às 15:26 do dia 15 de maio de 2017.]

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